Marco do Jauru

Heloisa Gesteira e Mariza Bezerra

MT, Brasil

16°3'51" oeste e 57°41'11" sul.

"Brasil amado não porque seja minha pátria, Pátria é acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der... Brasil que eu amo porque é o ritmo do meu braço aventuroso, O gosto dos meus descansos, O balanço das minhas cantigas amores e danças. Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada, Porque é o meu sentimento pachorrento, Porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir." (Poesias Completas, Mario de Andrade)

Publicado em
24/10/2022

Atualizado em
25/10/2022

O marco que hoje se encontra na praça Barão do Rio Branco, em Cárceres, Mato Grosso, foi colocado às margens do Rio Jauru em 1754, por astrônomos e engenheiros que fizeram parte de uma expedição para demarcação dos limites entre Portugal e Espanha, na América Meridional. O feito se deu após a assinatura do Tratado de Madri (1750), acordo que determinava os domínios espanhóis e portugueses na América do Sul.  Hoje o monumento não materializa o limite do Brasil, mas leva a pensar sobre a formação do território de um país.

Entre as formas mais expressivas de representação de uma nação e do sentimento de pertencimento a uma pátria, as cartas geográficas exercem fascínio. Pensemos nesses desenhos de países como molduras que nos levam a imaginar culturas, línguas e costumes que caracterizam os diferentes grupos que habitam o seu interior.

As linhas que definem os limites de um país não são meros traçados em papéis. Elas evocam lógicas de poder e complexos acordos entre os Estados que decidem o alcance de sua soberania num espaço que se transforma em território próprio – ainda que esse possa mudar ao longo do tempo. Em várias ocasiões, as alterações de linhas divisórias resultam de conflitos armados, tensionando as relações entre povos originários e conquistadores. Para materializar essas decisões, não raro foram erguidos marcos físicos, geralmente de concreto, em espaços de trânsito, como rotas fluviais, para serem avistados de longe. 

Tais demarcações também podem ser “naturais” ou geográficas, quando coincidem com rios, montanhas e, no caso do Brasil, a Leste, o próprio oceano Atlântico. Quanto aos limites a Oeste, muitos rios fazem a separação de territórios, como o Paraguai, o Paraná, o Iguaçu, o Jauru, o Oiapoque, o Chuí e o Javari. Este último foi explorado desde o século XVIII por expedições que indicaram em mapas a construção de marcos de pedra ou madeira, cravados no chão, visando monumentalizar o alcance do poder político dos Estados em área remota. Tempos depois, as nascentes do Javari viriam a ser fundamentais para o estabelecimento da fronteira entre Brasil e Bolívia, e com esta demarcação a questão do Acre foi resolvida em 1903.

As linhas também podem ser artificiais. Umas imaginárias, como o meridiano de Tordesilhas, durante muito tempo apontado como o limite divisório entre Portugal e Espanha, embora nunca respeitado pelo movimento das populações que habitavam as regiões disputadas. Neste caso, as linhas imaginárias que dividem o globo terrestre (os paralelos e meridianos), ou as conhecidas coordenadas de latitude e longitude resultam de um complexo sistema de medidas correspondentes entre o Céu e a Terra que permite o mapeamento celeste e terrestre com certo grau de precisão. Ainda que a definição de um país seja sempre imprecisa, como nota Mário de Andrade e atesta hoje o esquecido Marco do Jauru.

 

* Texto originado do projeto Portal de História da Ciência e Tecnologia no Brasil (PHCT-MAST) desenvolvido com recursos FAPERJ e FINEP.



Marco do Jauru, Foto: Allan Patrick (1)

Marco do Jauru, Foto: Allan Patrick (1)

Foto: Pedro Spoladore (2)

Foto: Pedro Spoladore (2)

Eusebio Antônio de Ribeiros (1781) (3)

Eusebio Antônio de Ribeiros (1781) (3)

Bibiano Sergio Macedo da Fontoura Costallat (1784) (4)

Bibiano Sergio Macedo da Fontoura Costallat (1784) (4)

Foto: Amazônia Real (5)

Foto: Amazônia Real (5)