Elesbão do Carmo
João José Reis
BA, Brasil
12°58'54" oeste e 38°26'15" sul.
Publicado em
30/09/2022
Atualizado em
02/12/2022
Elesbão era um liberto haussá, oriundo do Sudão Central, região ao norte da atual Nigéria. Os haussás eram muçulmanos, assim como os malês, e a maior parte chegou à Bahia como consequência do jihad lançado por muçulmanos puristas da etnia fulani que, a partir de 1804, sob a liderança do clérigo Usuman dan Fodio, fustigou o país haussá. Embora também fossem muçulmanos, ou mussulmis, como os haussás islamizados se chamavam, isso não impediu que fossem capturados e deportados aos milhares a bordo dos navios negreiros para a Bahia. Isso porque os fulanis consideravam-nos muçulmanos pouco ortodoxos e, portanto, passíveis de escravização.
Os haussás foram a liderança do ciclo de revoltas que assolaram a Bahia durante as primeiras décadas do século XIX. Talvez por isso, e por sua fama de letrados, é que os contemporâneos tenham sugerido que os haussás acompanharam os nagôs na conspiração de 1835. Mas, aparentemente, depois das muitas tentativas de revolta, naquela altura a maioria dos haussás tinham desistido da luta armada. Ainda assim as forças policiais prenderam 31 haussás durante a repressão que se seguiu à Revolta dos Malês. Desses 31, apenas três foram sentenciados. Entre eles estava Dandará, ou Elesbão do Carmo. Foi o único diretamente acusado de ser mestre – e o único a admitir sê-lo, atividade que exercia já na África. Era, portanto, um malam, equivalente haussá aos alufás dos nagôs.
Como bom mestre, Dandará reunia seus discípulos para oferecer instrução religiosa. Uma testemunha garantiu que o malam promovia orações coletivas duas vezes ao dia, provavelmente no mercado de Santa Bárbara, onde tinha uma loja na qual vendia fumo. Foi lá que, durante uma batida, os policiais encontraram artigos religiosos e, entre eles, alguns papeis malês. Além do mercado, outro espaço de instrução era sua casa, no Caminho Novo do Gravatá. Além de atuar em Salvador, Dandará pode ter sido um divulgador do Islã no Recôncavo
Nagôs e haussás tinham mestres entre seus parentes de nação, mas Dandará parecia uma exceção. Algumas testemunhas afirmaram que tinha discípulos nagôs. Um crioulo liberto, por exemplo, afirmou que na loja de Dandará reuniam-se tanto nagôs quanto haussás. Pelo menos um membro de outro grupo étnico tomava lições com o mestre muçulmano: o ganhador Domingos, bariba (de origem Borgu, na fronteira do país haussá), participante da revolta malê, afirmou que “também aprendia com Dandará”.
Alguns africanos denunciaram o malam como membro importante no movimento. Um escravizado de nação congo afirmou que “o preto Elesbão do Carmo é que é Capitão deste partido, que ele Respondente tem ouvido falar muito dele”. Mas Dandará negou participação no levante. Pesava sobre ele a acusação de participação em revoltas anteriores, protagonizadas pelos haussás.
Há um silêncio na documentação sobre o destino de Dandará. Sua companheira, Emerenciana, haussá como ele, foi acusada de distribuir anéis malês, fato por ela negado. Terminou condenada a quatrocentos açoites. Elesbão, por sua vez, foi preso e interrogado, mas seu nome não aparece no libelo acusatório. Aparece, sim, no Rol dos Culpados, mas o campo reservado para registro de sua sentença está vazio. Ou seja, não sofreu qualquer pena. A partir daí desaparece misteriosamente da documentação. É possível que fosse um líder religioso haussá dissidente que, diferente de seus confrades mussulmis, resolveu apoiar o movimento comandado pelos malês.
(Adaptação de texto publicado originalmente em https://www.salvadorescravista.com)
Links Relacionados Site Salvador Escravista
Referências
Luciana da Cruz Brito. Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista. Salvador: EDUFBA, 2016.
João José Reis. Rebelião escrava no Brasil: A História do Levante dos Malês em 1835. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
Fonte de Imagens:
Imagem 1: Mercado de Santa Bárbara. Fonte: https://www.salvadorescravista.com/homenagens-reparadoras/elesb%C3%A3o-do-carmo
Imagem 2: Rua Elesbão do Carmo no bairro de Armação, Salvador, Bahia. Fonte: https://www.salvadorescravista.com/homenagens-reparadoras/elesb%C3%A3o-do-carmo
Imagem 3: Amuleto Malê escrito em árabe Fonte: http://smec.salvador.ba.gov.br/documentos/a-revolta-dos-males.pdf
Imagem 4: Africano Nagô Fonte: http://smec.salvador.ba.gov.br/documentos/a-revolta-dos-males.pdf
Imagem 5: Livro Malê Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44011770